domingo, 23 de dezembro de 2012

O RECREIO.


Literatura para TEC V e Politicas Educacionais.
PARALELO DE LEITURA de o RECREIO: http://pt.scribd.com/doc/50020618/comeraprender
Comer e Aprender: uma história da alimentação escolar no Brasil...





O RECREIO

UMA PESQUISADORA ATUANDO COMO APOIO NA GESTÃO ESCOLAR NA POSSIBILIDADE DE REFLETIR SOBRE A “FORMAÇÃO HUMANA” DE PROFESSORES.

Cora Corinta Macedo de Oliveira

Resumo

A presente comunicação de pesquisa versará sobre uma proposta empreendida em maio de 2012 pela autora – uma estudante de graduação em licenciatura de pedagogia, mestre em educação e antropologia e, possuidora de uma graduação em nutrição. O estagio informal que se assumiu como uma pesquisa – indicou como eixo central a observação do tempo destinado ao recreio em uma escola pública das series iniciais na cidade de Salvador, onde, a partir do observado, se intenciona problematizar a categoria chave do empreendimento: os espaços pedagógicos. Para tanto se identifica o lugar destinado ao recreio, o refeitório, como um espaço pedagógico exterior à sala de aula e passível de ser estudado para contribuir com o planejamento e gestão educacional da escola. Buscou-se daí responder: Como a observação do espaço pedagógico do recreio, poderá colaborar para a reflexão sobre a possibilidade do dialogo entre o discurso de a condição de letrado de rua da criança (e adolescente) no paralelo do discurso para o letramento oficial (discurso de autoridade do professor e da comunidade escolar)? Para responder a tal questão ademais da observação e do contato estabelecido com os escolares e também com toda a comunidade escolar, a autora irá desfrutar da sua vivencia por um lado no estudo das condições do discurso da merenda escolar elaborada desde o seu mestrado em educação; e por outro da sua condição de docente na formação de pedagogos - sob o pressuposto de que o professor das series iniciais de escolas públicas tende a manter uma relação de discriminação com a criança “pobre”.

 

Palavras Chave: espaços pedagógicos; condição de letrado; faminto; gestão escolar.

 

 

INTRODUÇÃO

 

A VINCULAÇÃO DA AUTORA COM O DISCURSO DE FOME NO BRASIL E A ELEIÇÃO DA CATEGORIA DE ESPAÇOS PEDAGÓGICOS.

 

Ensaiando uma preliminar descrição sobre uma proposta de atividade de pesquisa etnográfica vinculada ao Departamento de Educação do Campus XV da Universidade do Estado da Bahia a autora relata sobre a definição da categoria eleita como central à investigação - espaço pedagógico posto em ordem da possibilidade de compartilhar experiências vividas a partir da relação aluno/professor na sala de aula; a sala de aula como sendo um lugar privilegiado nas relações disciplinares na escola oficial (escola formal). Não obstante, tal categoria é ampliada desde a experiência discursiva da autora para a presente proposta, como sendo a dinâmica de todos os encontros cotidianos passiveis de acontecerem, em particular, nos espaços exteriores a sala de aula das escolas, por exemplo, no horário de merendar o qual o reconheceremos como - recreio.

O recreio ou o momento de merendar é definido pela pesquisadora como o tempo etnográfico para a observação de expressões veiculadas em particular entre os próprios escolares e não menos entre os pares: aluno professor aluno funcionário, na comunidade escolar vivenciada. Vale ressaltar, que a eleição pelo tempo do recreio e o particular do ato de merendar se relaciona com a formação em nutrição da autora e seu desdobramento em estudos no Mestrado de Educação 1998, onde ela irá estudar a construção do discurso de fome no Brasil e a vinculação desse discurso com a institucionalização do Programa de “Merenda Escolar” entre nós; e daí problematizará a ideologia na reprodução da tese entre a desnutrição e o rendimento escolar da criança na escola publica das series iniciais.  (OLIVEIRA, 2009)

A referida tese esteve hegemônica nas décadas de 1970 e 1980 e sugeria que o fracasso escolar – a reprovação e a evasão, da criança nos espaços públicos escolares, tinha como causa básica o estado nutricional da criança - sua suposta desnutrição ou estado faminto. Perseguindo tal ideologia ela se decidiu estudar as condições de produção do discurso que legitimou a alimentação gratuita do escolar no Brasil. Identificou que a institucionalização da “merenda escolar” descende dos anos de 1930 em paralelo com a “descoberta da fome brasileira”. Ela irá identificar também que o discurso de fome ao tentar afirmar a fome como uma categoria central para explicar o subdesenvolvimento do país, termina por reduzir o Outro – o faminto ao seu próprio estômago, inferiorizando.

 

A EXPERIÊNCIA DOCENTE NA FORMAÇÃO DE PEDAGOGOS JUNTO A UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA

 

A autora enquanto professora do curso de graduação em pedagogia, e atuando também na formação de professores leigos em pedagogia para as series iniciais ira escutar de docentes a posição de ratificar a tese da desnutrição da criança justificando por vez o “fracasso escolar”, sem ater-se a um posicionamento reflexivo das questões colocadas na ordem do dia para o espaço escolar tanto em suas condições físicas como das interações entre alunos e professores. Afirmar uma relação entre a desnutrição da criança e o seu rendimento escolar nos moldes como historicamente foi ideologizado, isto é negligenciando a imagem de populações pobres negras e indígenas, no Brasil significará por suposto filiar-se a uma posição entendida aqui como discriminatória ou no mínimo preconceituosa para com o Outro – a aluno pobre (negro, índio - mestiço) da escola fundamental pública na Bahia. (OLIVEIRA, 2009)

É dizer: professores, em sua maioria, a exemplo daqueles que atuam na cidade de Salvador na Bahia, - afirmam que nunca colocariam seus filhos na escola pública ainda que fossem - aquelas escolas aonde trabalham como professores. Daí a autora deste ensaio indaga: “Se, eu sou professora da escola publica do ensino fundamental e meu filho nunca que irá estudar na escola que eu ensino” – Quem é aquela criança que esta na condição de meu aluno?  Em que, que eles seriam tão distintos das crianças identificadas como “meus filhos” que estudam na escola particular? Seria este um primeiro elemento a se considerar quando se toma a tese da relação desnutrição x rendimento escolar como “bode expiatório” para justificar os índices de repetência? Ou seja, o aluno que nunca será o “meu filho”, mas, no entanto, está na condição de meu aluno é sempre um faminto, e como tal, incapaz de acompanhar o dia a dia escolar? (OLIVEIRA, 2009:2)

As questões passíveis de circunstanciar a elaboração deste texto cumprem o objetivo de dinamizar possíveis reflexões que possam colaborar numa revista do nosso olhar à criança pobre que está na nossa responsabilidade para cumprir uma iniciação na cultura escolar para o ato de ler e de escrever. Sob tal pressuposto a pesquisadora iniciou sua observação no espaço pedagógico do recreio – um espaço exterior a sala de aula, que no particular da escola elegida, pela limitação dos espaços físicos, o recreio é tão somente o deslocamento de crianças da sala de aula para o refeitório em grupos a partir das series em cada sala de aula no horário de 09h40minh até as 11h00minh. Não obstante seu movimento buscará dimensionar seu olhar para descrever o que são as relações escolares no espaço pedagógico do recreio na escola pesquisada para além do pressuposto acima indicado.

A observação do referido espaço está fundamentada para a descrição do conceito inicialmente sugerido pela autora de: a condição de letrado de rua dos escolares. Uma condição por eles conquistada quando estão fora do espaço da sala de aula. Objetivando daí questionar: Como a observação do espaço pedagógico do recreio, destinado por suposto ao merendar, poderá colaborar para problematizar a possibilidade do dialogo entre o discurso da condição de letrado da rua em criança e o discurso para o letramento oficial em comunidades escolares públicas para as series iniciais?

Afirmaríamos que uma preocupação importante hoje é o como garantir o letramento na cultura da leitura da palavra escrita no mundo ocidental às crianças pobres que tem acesso “garantido” na rede municipal.  Com isso, esperamos colaborar para uma reflexão do como alcançar o interesse de crianças para o seu disciplinamento no letramento oficial.

 

DA CATEGORIA DE ESPAÇOS PEDAGÓGICOS À PROBLEMATIZAÇÃO DO CONCEITO DE A CONDIÇÃO DE LETRADO DE RUA

 

 

Entendendo que o conceito de condição de letrado de rua pelas crianças que habitam as escolas públicas das series iniciais baianas, signifique a maturidade e a perspicácia empreendida em experiências com espaços públicos, prioritariamente – com a rua, se constitui por suposto, paradoxal ao confronto com a “autoridade” docente. Ou seja, seguimos pedagogicamente em aberto buscando responder ao: Como lidar numa relação dialógica no cotidiano disciplinar escolar com a condição de letrado de rua da criança sem comprometer a autoridade de professor, de gestor dos espaços escolares (pedagógicos)?

Ainda se pode afirmar que a despeito das tentativas políticas: 1) de programas de formação continuada e qualificação docente; 2) de alguns casos em algumas cidades baianas, se reduzirem o número de alunos por sala de aula e professor; 3) de em particularíssimas circunstancias governamentais se garantir salários dignos aos docentes de escolas municipais; e, 4) até das constantes revistas aos programas curriculares e normativos para as series iniciais - que o trato com o escolar que está alheio em seu espaço privado, (espaço domestico) de o contato disciplinar exigido pela cultura da escrita e da leitura, continua um desafio a ordem dos espaços pedagógicos; impassível a possibilidade de dialogo que garanta com equidade a apreensão do letramento “oficial” pelo referido escolar. (RIBEIRO, 1991)

A questão do como alcançar as dissonantes alteridades callejeras[1] de crianças pobres alijadas do conceito do letramento oficial se constitui, por suposto, num sentimento de angustia entre os profissionais da pedagogia no geral, na medida em que parece intransponível lidar com elas nos espaços pedagógicos.

O reconhecimento da condição de letrado de rua, da autonomia dos escolares no paralelo da posição de distanciamento com qualquer tipo de preconceito e de discriminação que esta condição poderá ocupar na relação de autoridade do professor e da autoridade de toda a comunidade que gesta as atividades e responsabilidades com os escolares - é um princípio para o fortalecimento do diálogo e de atitudes humanizantes nos espaços pedagógicos da escola. E colaborar para o esclarecimento do sentido e significado desta condição para a comunidade escolar, parte do entendimento de que somente irá fortalecer os laços pedagógicos de socialização e de sociabilidade para uma relação dialógica. É dizer de um olhar horizontalizado entre pares, dissimulado para os efeitos disciplinares competitivos que as relações pedagógicas escolares tendem a se pronunciar.  Da disciplina pela disciplina e somente tencionando hostilidade entre os pares.

Para dar conta de tal intenção, inicialmente identificaremos a conceito de condição de letrado de rua adotado pela autora desta proposta para identificar a maturidade cognitiva de crianças escolares em suas convivências com espaços públicos não escolares, em particular, com a rua, se identifica como uma referencia desdobrada na proposição freireana no Ato de ler (1988) - “Leitura do mundo” desde o conceito utilizado em sua proposta para a alfabetização de adultos.  Por sua vez, identificar agora o conceito de “leitura do mundo” como sinônimo revisto de condição de letrado de rua retratando daí a criança nas series iniciais é se permitir tolerar a avalanche de sentimentos que pulsam na dinâmica infantil e juvenil vivenciados nesta condição como, por exemplo, o sentimento de astucia, de esperteza, de sagacidade, e, principalmente de um empreendido desprendimento que o espaço da rua lhes outorga.

Com um sentido dicotômico ao conceito da condição de letrado de rua indicamos o conceito de letramento oficial identificado inicialmente a partir de Magda Soares (2003) e irá tratar da iniciação da criança na cultura da escrita e /ou na leitura da palavra escrita, na escola oficial. Como dotar de sentido a atividade de leitura e de escrita para as crianças das series iniciais de escolas públicas?

Indicamos para problematizar o letramento oficial o contexto de reprodução do discurso científico e sua hegemonia nos fazeres educacionais em espaços pedagógicos. Imaginemo-nos daí, por exemplo, atuando como docentes da series iniciais lidando com comunidades tradicionais, por exemplo, as comunidades indígenas e tendo que ressaltar para os alunos tão somente a forma de produzir conhecimento sobre biologia a partir da perspectiva científica?  Não estaríamos sendo autoritários e negligenciando o dialogo com outras formas de produzir conhecimento? Tais reflexões nos foram possíveis a partir da abordagem da pesquisadora bióloga CUNHA (2001-2002). E consta em trabalho anteriormente publicado quando nos inquietamos com o conceito de ciência defendido para a temática de pedagogia.  (OLIVEIRA, 2011).

Neste contexto uma questão importante é termos em conta se a pratica de pesquisa cientifica enquanto uma sofisticação posta para o estudante acadêmico poderá estar sendo iniciada no ensino fundamental? O que seria praticar ciência com as crianças? Desde logo vale ressaltar que ciências para o ensino fundamental, estão postas como o nome de um dos livros utilizado pelo professor (docente) – o livro de ciências. – Você abre o livro de ciências e em seu interior está o conteúdo de biologia... Ainda para o destino da sua conceituação se indagaria: sociologia é ciência? Como poderia estar contemplada as ciências sociais no ensino fundamental? Isto sem contar com as demais abordagens possíveis no ensino fundamental, por exemplo, a área da língua portuguesa que trata de gramática: é ciência?

Longe de discutir aqui a hegemonia da produção do conhecimento científico; o que nos parece pertinente seria afirmar as perspectivas várias possíveis à prática pedagógica e também ao que hoje se identifica como uma “masculinização do currículo”. (SILVA, 2004) Isto como uma aplicação do discurso pedagógico vinculado ao rigor científico disciplinar dos conteúdos. É dizer a gramática pela gramática, a matemática pela matemática, a geografia pela geografia, descontextualizado do brincar, da prosa e da poesia, bem como da realidade cotidiana das crianças e da sua condição de “doutor” na condição de letrado de rua. A intenção é esclarecer como letrar crianças na disciplina escolar oficial identificando nelas a condição de letrado de rua? Os professores da escola pesquisada estariam atentos ou identificando tais possibilidades?.

 Tanto o conceito de a condição de letrado de rua e do letramento oficial está posto aqui para refletirmos a categoria de espaços pedagógicos na escola; todos os lugares - da sala de aula e fora dela onde possam se efetivar as dinâmicas de ensino aprendizagem, do compartilhamento de vivencias, como sinônimos de relações dialógicas, (este também, como um conceito inicialmente referido a partir de FREIRE 1987).   Como estabelecer metas pedagógicas a partir da observação do recreio onde se supõe um momento de lazer e desprendimento da burocracia da sala de aula?

Se, já há muito, não sustentamos uma autoridade pedagógica escolar que tinha no professor a forma privilegiada de garantir a transmissão de informações e conhecimentos na utopia de uma garantia de ascensão social indagamos: se "A função da escola é ensinar às crianças como o mundo é, e não instruí-las na arte de viver" (ARENDT, escrito em 1957 e referido como 2005), o que saberia hoje o professor ensinar sobre o mundo das crianças desde pertença delas a uma condição de letrado de rua?

 Indicar a referência teórica de Hannah Arendt nos reporta a discussão sinalizada pelo educador português Antônio Nóvoa quando se propõe superar as ideologias educacionais hegemônicas na abordagem da pratica pedagógica na formação de professores entendendo que há um “...excesso da retórica politica e dos mass mídia à pobreza das políticas educativas” ; e também “Do excesso do discurso científico educacional a pobreza das praticas pedagógicas”. (NÓVOA, 1999)

 

PRINCÍPIOS PARA EFETIVAR A OBSERVAÇÃO E O CONTATO COM O ESPAÇO PEDAGÓGICO DO MERENDAR NA ESCOLA PÚBLICA DAS SERIES INICIAIS

 

 

Por enquanto estas foram as indicações de referencias teóricas metodológicas indicadas no item anterior que se deseja compartilhar ao longo da pesquisa proposta que iniciamos a partir de uma pesquisa etnográfica (JORDÃO 2004; PEIRANO, 1995) proposta como a possibilidade de praticarmos a observação de um espaço pedagógico numa escola das series inicias – o recreio. A observação no refeitório e no período de tempo de 9h40 a 11h da manhã a pesquisadora observará os escolares e buscará estabelecer o contato particularmente com eles, em visitas de um turno da manhã e uma vez por semana durante um período mínimo de um ano, iniciada em maio de 2012.

Na sua atuação como pesquisadora ela descreverá as suas visitas a partir da coleta de dados. Sobre a coleta de dados ela descreve que numa destas observações ela estaria lendo um jornal que um escolar o pediu emprestado, pois a professora o havia solicitado. Com o jornal na mão a pesquisadora rendeu conversa com o escolar e lhe disse que o entregaria se ele lesse um par de palavras. Ele tentou aqui e ali e não saiu nada do alvoroço dele em levar o jornal. Ela insistiu sobre a parte do jornal que ele se interessaria, e para surpresa, ele prontamente respondeu: eu quero saber sobre a cotação do dólar. E para surpresa da pesquisadora ele atendeu ao seu pedido de escrever a palavra dólar.

Em outra visita, ao largo de um encontro com um par deles entre meninos e meninas a pesquisadora escutou um menino referir-se para uma menina da seguinte forma: “Ela dá santo; ela tá dando santo...” A menina indicada por ele, naquele momento estava com o cabelo engadanhado e tentou somente “agredir” em tapas de desfeita o menino. Nisto a pesquisadora se aproximou do grupo e disse: “Diga pra ele que você dá sim santo sim, mas não é para ele” – “Dou santo sim e não é pro senhor não”. “Não tem nada aqui para o senhor”! e saiu dali dando risadas... Se fez entre os presentes um breve silencio e não somente as crianças supostamente escutaram o dito, mas também os funcionários que atendem na distribuição da merenda. Possa que em nada tenha a ver, mas nas visitas subsequentes a menina se levava com o cabelo ajeitado e até com uma tiara. E de mansinho se deu de pose para ser fotografada. Valendo daqui questionar: como os gestores estão identificando as atuais tensões religiosas entre os escolares? Procederia a observação de expressões vividas entre eles neste sentido?

Desde aí também a pesquisa poderá ser identificada como uma pesquisa participante (BRANDÃO 1985, 1986) no sentido de que a pesquisadora objetiva partilhar a autoria da pesquisa com os docentes da referida escolar e também colaborar apresentando sugestões e ou refletido sobre as questões identificadas em sua convivência no referido espaço pedagógico para a afirmação de relações dialógicas.  Ou seja, a pesquisadora se propõe atuar como apoio escolar tentando contribuir com a reflexão das relações vivenciadas nos espaços pedagógicos da escola.

 
REFERENCIAS

 

ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro. Forense. 1987.

ARENDT, Hannah. A crise na educação. In: Entre o passado e o futuro. São Paulo. Perspectiva, 2005.

FREITAS, João Loyola. A crise na educação moderna segundo Hannah Arendt. Griot – Revista de Filosofia, Amargosa Bahia Brasil v. 2, dezembro 2010.

BRANDÃO, Carlos R. Repensando a Pesquisa Participante. São Paulo, Brasiliense, 1985.

_______________. Pesquisa Participante. São Paulo. Brasiliense, 1986


CUNHA, Manuela Carneiro. Saberes. In: Interpretes do Brasil. Isa Grinspim Ferraz. DVD Duplo.  Vol. I. Documentário, 2001-2002.

Freire, Paulo.  A Importância do Ato de Ler: em três artigos que se completam.  22 ed. São Paulo: Cortez, 1988.

__________ Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São

Paulo: Paz e Terra, 1996.

________. Pedagogia do oprimido. 27 ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987.

 
JORDÃO, Patrícia. A antropologia pós-moderna: uma nova concepção da etnografia e seus sujeitos. Revista de iniciação cientificada FFC. Vol. 4 nº 1 2004.

NÓVOA, Antônio. Os professores na virada do milênio: do excesso dos discursos à pobreza das práticas. 1999. Cuadernos de Pedagogia Nº 286.

OLIVEIRA, Cora Corinta Macedo de. A pedagogia é uma ciência? Reflexões sobre a relação entre a pesquisa de caráter científico e a produção do conhecimento na formação de professores das series iniciais. Anais do XI Congresso Estadual Paulista de educadores e I Congresso Nacional de Formação de Professores. UNESP Aguas de Lindoia São Paulo agosto de 2011.

____________. A invenção da fome brasileira: reflexão sobre o espaço de escolarização fundamental pública no brasil. Anais do 19 EPENN, Paraíba, 2009.

__________. Os arautos da nutrição. Uma palavra em merenda escolar. Elementos da invenção da fome brasileira. Itabuna: Gráfica Agora. 2003.

PEIRANO, Marisa. A favor da etnografia. Rio de Janeiro, Relume - Dumará, 1995.

RIBEIRO, Sergio. A pedagogia da repetencia. Estud. Av. Vol. 5 nº 12. São Paulo Scielo. Mai- Ago. 1991.

SILVA, Lilian Vieira da. et.al. A masculinização do currículo e a escola pública. Monografia de conclusão curso de espacialização em Politica do Planejamento Pedagógico. 2004. Campus XIII Itaberaba - Bahia. Doc. Mimeo.

SOARES, Magda. Alfabetização e letramento. São Paulo: Contexto, 2003.



[1] Callejeras é uma expressão espanhola para significar uma pertença à rua.





 

sábado, 15 de setembro de 2012

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

ED0044 - "Educação e Cultura Afro Brasileira"







Conteúdo Programatico em 18 de Setembro de 2012.
A leitura da "questão" - Cultura Afro Brasileira na Escola Básica
Por onde caminhar?
Quais encontros e/ou reencontros tematizar...
O "DIREITO" como Abordagem: Da obrigatoriedade e Da necessidade!
 
 
 
 
Em março 2013
 
UM CONTO DE AFRICA.
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A primeira viagem de Cora Macedo para África isto em 1998 estava longe de se constituir uma viagem de neg-ócios acadêmicos. Tipo: realizar uma pesquisa sobre como vivem ali; ou, o que comem e como; e mesmo do testar ou comprovar alguma verdade sobre o comportamento de africanos. Hoje é claro passado por outras vivencias de lugares que lhe remeteu a sua condição de afro descendente religiosa ela está segura em afirmar se tratar de uma peça ancestral. Melhor dito - lhe pregaram uma peça. Ela viajou movida por um sentimento de pertença à sua condição afro, instigada em particular pela sua avó materna Cotinha de Abreu, que lhe inspirava num sentimento ressentido para com os seus irãos africanos. Se ela sempre se soube afirmada em tons africanos, tanto em aspectos físicos como metafísicos de sua afinidade especialmente com o SAMBA tal viés não se efetivava na relação com a palavra falada e SIM por uma constituição silenciosa. Nunca precisou afirmar o que sempre se sentiu SER, mestiça afirmada em negro e indio. E assim ela, uma vez se relacionando afetivamente com um africano organizou com ele uma viagem a este continente... no mais puro desejo de desfrutar do ócio (como sinonimo de introspeção). De passear diletante sua condição silenciosa herdada de mater. De vivenciar a arte pela arte de fotografar . A fotografia fazendo parte do seu silencio onde tem no olhar a ação devassa. A ação de indagar o que por certo não se evidenciava a olhos nus. O fotografar como o mais radical dos silêncios...
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Desde aqui então vale dizer que no geral, e neste geral estava Cora, a ignorância de nós brasileiros sobre África sempre nos levou até insinuar sua redução a um país. E nisto esclarecemos tratar-se-ia de uma viagem ao Benin. E dele somente tínhamos notícias das fotografias de Pierre Verger. E, do mais recente e pessoal da viagem de Cora ao Benin naquela data, os estudos empreendidos pelo seu anfitrião beninês. Seu anfitrião estudava os candomblés de origem beninesa na Bahia, daqueles que herdaram a tradição desde o idioma FON; ele gravava os cânticos praticados nos candomblés jejes e uma vez no Benin apresentava as gravações aos benineses que falantes da língua sabiam decifrar e reproduzir sem dificuldades as letras dos cânticos. No paralelo dos estudos do seu anfitrião e no que estava inusitado para ele o viver no Brasil, se não nos equivocamos coisa de no máximo um ano, lhe saltavam aos olhos algumas propriedades vivenciadas entre nós baianos. Uma delas, por suposto aquela que a ele mais instigava: a declarada condição homossexual masculina entre os baianos. E não menos nos espaços religiosos do candomblé jeje onde se enunciava para ele o berço dos homossexuais. Em nada aquela controvérsia interessava a Cora e ela seguia escutando-lhe e fazendo "ouvido de mercador", nunca lhe houvera render conversa. Pelo menos até aqui...

Como tal chegaram eles ao Benin.

De passagem num avião São Paulo/Costa do Marfim/Benin cuja presença majoritária até a Costa do Marfim era de libaneses, somente ela reinava de brasileira. Seu anfitrião vestido a caráter desde sua ascendência real demarcava sua condição de talvez um estadista africano. Suficiente para impedir que Cora não fosse submetida a um exame de raios-X estomacal em serviço de saúde na passagem na cidade de capital da Costa do Marfim, onde todos os africanos inclusive ele estavam sob a suspeita do trafico de drogas. Já ali em Costa do Marfim onde pode desfilar em carro oficial da policia pelas ruas da cidade do aeroporto até um centro de saúde pode sentir o adjetivado para África Negra.

Somente negros!.

Sobre isto seu anfitrião já lhe havia sinalizado. "Cora ali você não vai identificar mestiçagem..." É um horizonte de negritude. E tanto que ali, entre os benineses e longe de uma condição turística em si; uma vez inserida na família do anfitrião - a vizinhança de crianças e quase a totalidade de adultos no oportuno da convivência de um mês tratavam-na de identifica-la por "branca".

Branca!!!

Acirrava-se nela uma condição ensimesmada de viajante que de tanto lhe afrontar a soberba do estranhamento permitia em seu humor a invasão impiedosa do sentimento de
calundu. Uma condição infantilizada pautada numa introspecção indigesta. Alimentada pela impossibilidade de falar o idioma francês em tom beninês que ao final os idiomas que ali professavam eram o ioruba e o fon. E pincelada na tensão afetiva que ao final foi se desenhando no convívio paisagístico com o seu anfitrião ela era somente introspecção na geografia beninesa.

Cotonou era a cidade natal dele e ali sentaram residência no convívio com seus ascendentes maternos, mãe, avó; também um irmão e com ele um agregado. Outros parentes viviam em outros espaços alheios a casa principal. De Cotonou viajaram a capital administrativa do país – Porto Novo. E dos deslocamentos a outras cidades destacaríamos a cidade de Uidah. A visita a esta cidade foi breve – um passeio de um dia - manhã e tarde, e se não se equivoca na hierarquia dos períodos de viagens no Benin, a viagem para Uidah já foi próximo aos últimos 5 dias para o retorno ao Brasil. A permanência em Uidah embora breve não deixou de ser emocionante e trepida. Ali estavam os supostos seres benineses socialmente vencidos e de quando deportados para o Brasil no comercio de escravos, alguns deles retornaram para o Benin ocupando o espaço que hoje forma a cidade de Uidah.

Salvo engano seu anfitrião se distanciava daquela condição e nutria como que uma picardia ao olhar aquela gente como que naturalizando o feito passado. Nisto seu humor desde a condição do riso fácil estava sempre presente e tratou de contar-lhe a história de um rei que ao empossar-se como tal e insatisfeito com o tráfego dos seus compatriotas deportou para o Brasil a mãe do rei que lhe houvera antecedido. Esta parece ser a ascendência histórica da religiosidade hoje existente no Maranhão onde ali se professa o Tambor de Minas.

Nisto foi a viagem a cidade de Ábome a que depois de Cotonou estiveram por um período não menos que de 5 dias. Na cidade de Abome acontecia a mais importante festa religiosa do país: o culto aos Vodus. Já antes dali ela observava que o comportamento físico entre os homens benineses era distinto daquele praticado no Brasil. Uma vez hospedada na casa da família do seu anfitrião Cora observará a proximidade física entre o irmão dele com outro que parecia assumir a posição de serviçal. Entre eles era permitido o toque de mãos e um tratamento que entre nós brasileiros somente existia no geral em espaços públicos entre os homossexuais. Ali em espaços públicos os homens se cumprimentavam como talvez entre se costumassem se cumprimentar as mulheres brasileiras, entre beijos e abraços sem se constituir necessariamente numa relação homossexual. Em seu ensimesmamento ela sequer tratou de atualizar com o seu anfitrião suas percepções; mesmo porque tal discussão a ela não interessava. Ainda assim ela o escutava debochar entre seus pares de amigos mais próximos os possíveis sentidos da corporação homossexual entre os baianos e a presença deles nos cultos afros descendentes de nação jeje... Ela sentia como se ele estivesse tripudiando, ou mesmo desmerecendo tal condição e mais afirmando tratar-se de algo que não dizia respeito a presença da civilização beninesa na Bahia. Nisto foram participar das festividades ao culto dos Vodus. Ainda que de calundu talvez também pela sua condição de primeira dama do estadista beninês que a exibia no seu país natal ela foi saudada em rituais: - como aquele de reverenciar a Exu onde todos podiam tocar em vários pênis de madeiras apresentados em vários tamanhos. Se aqui e ali ela seguiu fotografando em Abome, ainda que lhe tivesse sido autorizado pelo o grande sacerdote religioso fotografar o evento religioso em alguns espaços lhe era completamente vedado por terceiros. Por exemplo, ela fez pose para fotografar uma imagem na porta de um espaço religioso. Tratava-se de uma escultura de madeira de no máximo 50 centímetros onde 30 deles era o tamanho do pênis e foi energicamente impedida de faze-lo.

Na festa de Vodu o ritual de matança, se fazia á luz do dia e em espaços públicos. Uma festa muito alegre de muita algazarra e como dizíamos no início, Cora se quer se dava conta da materialidade daquele encontro, principalmente do ponto de vista acadêmico religioso.

O tempo lhe pregou uma peça, quando lhe enunciou um mundo religioso ao vivo e totalmente a cores...

Literalmente estava de ócio. Como tal se deixava acompanhar ao lado do seu anfitrião de noite e de dia aos vários encontros públicos religiosos em Abome e pode fazer belas fotografias. Pode olhar os homens, todos eles vestindo longas saias. E numa destas festa de vodu esteve em uma grande roda de pessoas, todas em algazarra esperando que saísse de um misterioso recinto pessoas religiosas se apresentando em rituais vodus. Nisto saem do recinto dois homens dançando e no gestual um deles pula e abraça o outro de formas a que suas pernas alcançaram a cintura do outro e ali na roda e rodando e as vistas de todo os presentes os dois homens se atracaram num beijo na boca de no mínimo cinco minutos. Cora olhou, e nada continuou lhe dizendo respeito! - salvo seu olhar de soslaio ao seu anfitrião. Ela voltou-se para ele, pronta numa risada em tom de gargalhada, mas o encontrou tal empalidecido, tão transtornado com a cena que ela preferiu continuar em silencio, ou silenciar o que nela gargalhava...
 
 
 
 
 

TEC II e III - NUTRIÇÃO.






http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/65/Kora_%28African_lute_instrument%29.jpg



A violência é um resíduo apocalíptico do machismo. Glauber Rocha

A histótia é feita pelo povo e escrita pelo poder. Glauber Rocha    



"Fustigados pela imperiosa necessidade de alimentar-se, os institntos primários se exaltam e o homem, como qualquer animal esfomeado, apresenta uma conduta mental que pode parecer a mais desconcertante". Josué de Castro  


"Não é mal da raça nem do clima. É mal da fome. A fome tem sido, através dos tempos, a péia que entrava sempre o progresso latino americano." Josue de Castro


  "As chamadas "raças inferiores" são apenas raças famintas, capazes de se apresentar quando bem alimentadas, em igualdade de caracteres com as supostas 'raças superiores". Josué de Castro  


" A fome se revelou espontaneamente aos meus olhos nos mangues do capiberibe, nos bairros miseráveis de recife - Alagados Pina Santo Amaro, Ilha do Leite [...] lame dos mangeus de recife, fervilhando de caranguejos e povoados de seres humanos feitos de carne de caranguejo, pensando e sentido como caranguejo.  São seres anfibios - habitantes da terra e da água, meio homens e meio bichos. Alimentados na infancia com caldo de caranguejo - este leite de lama, se faziam irmão de leite dos caraguejos." Josue de Casto