Conteúdo Programatico em 18 de Setembro de 2012.
A leitura da "questão" - Cultura Afro Brasileira na Escola Básica
Por onde caminhar?
Quais encontros e/ou reencontros tematizar...
O "DIREITO" como Abordagem: Da obrigatoriedade e Da necessidade!
Em março 2013
UM CONTO DE AFRICA.
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A primeira viagem de Cora Macedo para África isto em 1998 estava longe de se constituir uma viagem de neg-ócios acadêmicos. Tipo: realizar uma pesquisa sobre como vivem ali; ou, o que comem e como; e mesmo do testar ou comprovar alguma verdade sobre o comportamento de africanos. Hoje é claro passado por outras vivencias de lugares que lhe remeteu a sua condição de afro descendente religiosa ela está segura em afirmar se tratar de uma peça ancestral. Melhor dito - lhe pregaram uma peça. Ela viajou movida por um sentimento de pertença à sua condição afro, instigada em particular pela sua avó materna Cotinha de Abreu, que lhe inspirava num sentimento ressentido para com os seus irãos africanos. Se ela sempre se soube afirmada em tons africanos, tanto em aspectos físicos como metafísicos de sua afinidade especialmente com o SAMBA tal viés não se efetivava na relação com a palavra falada e SIM por uma constituição silenciosa. Nunca precisou afirmar o que sempre se sentiu SER, mestiça afirmada em negro e indio. E assim ela, uma vez se relacionando afetivamente com um africano organizou com ele uma viagem a este continente... no mais puro desejo de desfrutar do ócio (como sinonimo de introspeção). De passear diletante sua condição silenciosa herdada de mater. De vivenciar a arte pela arte de fotografar . A fotografia fazendo parte do seu silencio onde tem no olhar a ação devassa. A ação de indagar o que por certo não se evidenciava a olhos nus. O fotografar como o mais radical dos silêncios...
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Desde aqui então vale dizer que no geral, e neste geral estava Cora, a ignorância de nós brasileiros sobre África sempre nos levou até insinuar sua redução a um país. E nisto esclarecemos tratar-se-ia de uma viagem ao Benin. E dele somente tínhamos notícias das fotografias de Pierre Verger. E, do mais recente e pessoal da viagem de Cora ao Benin naquela data, os estudos empreendidos pelo seu anfitrião beninês. Seu anfitrião estudava os candomblés de origem beninesa na Bahia, daqueles que herdaram a tradição desde o idioma FON; ele gravava os cânticos praticados nos candomblés jejes e uma vez no Benin apresentava as gravações aos benineses que falantes da língua sabiam decifrar e reproduzir sem dificuldades as letras dos cânticos. No paralelo dos estudos do seu anfitrião e no que estava inusitado para ele o viver no Brasil, se não nos equivocamos coisa de no máximo um ano, lhe saltavam aos olhos algumas propriedades vivenciadas entre nós baianos. Uma delas, por suposto aquela que a ele mais instigava: a declarada condição homossexual masculina entre os baianos. E não menos nos espaços religiosos do candomblé jeje onde se enunciava para ele o berço dos homossexuais. Em nada aquela controvérsia interessava a Cora e ela seguia escutando-lhe e fazendo "ouvido de mercador", nunca lhe houvera render conversa. Pelo menos até aqui...
Como tal chegaram eles ao Benin.
De passagem num avião São Paulo/Costa do Marfim/Benin cuja presença majoritária até a Costa do Marfim era de libaneses, somente ela reinava de brasileira. Seu anfitrião vestido a caráter desde sua ascendência real demarcava sua condição de talvez um estadista africano. Suficiente para impedir que Cora não fosse submetida a um exame de raios-X estomacal em serviço de saúde na passagem na cidade de capital da Costa do Marfim, onde todos os africanos inclusive ele estavam sob a suspeita do trafico de drogas. Já ali em Costa do Marfim onde pode desfilar em carro oficial da policia pelas ruas da cidade do aeroporto até um centro de saúde pode sentir o adjetivado para África Negra.
Somente negros!.
Sobre isto seu anfitrião já lhe havia sinalizado. "Cora ali você não vai identificar mestiçagem..." É um horizonte de negritude. E tanto que ali, entre os benineses e longe de uma condição turística em si; uma vez inserida na família do anfitrião - a vizinhança de crianças e quase a totalidade de adultos no oportuno da convivência de um mês tratavam-na de identifica-la por "branca".
Branca!!!
Acirrava-se nela uma condição ensimesmada de viajante que de tanto lhe afrontar a soberba do estranhamento permitia em seu humor a invasão impiedosa do sentimento de calundu. Uma condição infantilizada pautada numa introspecção indigesta. Alimentada pela impossibilidade de falar o idioma francês em tom beninês que ao final os idiomas que ali professavam eram o ioruba e o fon. E pincelada na tensão afetiva que ao final foi se desenhando no convívio paisagístico com o seu anfitrião ela era somente introspecção na geografia beninesa.
Cotonou era a cidade natal dele e ali sentaram residência no convívio com seus ascendentes maternos, mãe, avó; também um irmão e com ele um agregado. Outros parentes viviam em outros espaços alheios a casa principal. De Cotonou viajaram a capital administrativa do país – Porto Novo. E dos deslocamentos a outras cidades destacaríamos a cidade de Uidah. A visita a esta cidade foi breve – um passeio de um dia - manhã e tarde, e se não se equivoca na hierarquia dos períodos de viagens no Benin, a viagem para Uidah já foi próximo aos últimos 5 dias para o retorno ao Brasil. A permanência em Uidah embora breve não deixou de ser emocionante e trepida. Ali estavam os supostos seres benineses socialmente vencidos e de quando deportados para o Brasil no comercio de escravos, alguns deles retornaram para o Benin ocupando o espaço que hoje forma a cidade de Uidah.
Salvo engano seu anfitrião se distanciava daquela condição e nutria como que uma picardia ao olhar aquela gente como que naturalizando o feito passado. Nisto seu humor desde a condição do riso fácil estava sempre presente e tratou de contar-lhe a história de um rei que ao empossar-se como tal e insatisfeito com o tráfego dos seus compatriotas deportou para o Brasil a mãe do rei que lhe houvera antecedido. Esta parece ser a ascendência histórica da religiosidade hoje existente no Maranhão onde ali se professa o Tambor de Minas.
Nisto foi a viagem a cidade de Ábome a que depois de Cotonou estiveram por um período não menos que de 5 dias. Na cidade de Abome acontecia a mais importante festa religiosa do país: o culto aos Vodus. Já antes dali ela observava que o comportamento físico entre os homens benineses era distinto daquele praticado no Brasil. Uma vez hospedada na casa da família do seu anfitrião Cora observará a proximidade física entre o irmão dele com outro que parecia assumir a posição de serviçal. Entre eles era permitido o toque de mãos e um tratamento que entre nós brasileiros somente existia no geral em espaços públicos entre os homossexuais. Ali em espaços públicos os homens se cumprimentavam como talvez entre se costumassem se cumprimentar as mulheres brasileiras, entre beijos e abraços sem se constituir necessariamente numa relação homossexual. Em seu ensimesmamento ela sequer tratou de atualizar com o seu anfitrião suas percepções; mesmo porque tal discussão a ela não interessava. Ainda assim ela o escutava debochar entre seus pares de amigos mais próximos os possíveis sentidos da corporação homossexual entre os baianos e a presença deles nos cultos afros descendentes de nação jeje... Ela sentia como se ele estivesse tripudiando, ou mesmo desmerecendo tal condição e mais afirmando tratar-se de algo que não dizia respeito a presença da civilização beninesa na Bahia. Nisto foram participar das festividades ao culto dos Vodus. Ainda que de calundu talvez também pela sua condição de primeira dama do estadista beninês que a exibia no seu país natal ela foi saudada em rituais: - como aquele de reverenciar a Exu onde todos podiam tocar em vários pênis de madeiras apresentados em vários tamanhos. Se aqui e ali ela seguiu fotografando em Abome, ainda que lhe tivesse sido autorizado pelo o grande sacerdote religioso fotografar o evento religioso em alguns espaços lhe era completamente vedado por terceiros. Por exemplo, ela fez pose para fotografar uma imagem na porta de um espaço religioso. Tratava-se de uma escultura de madeira de no máximo 50 centímetros onde 30 deles era o tamanho do pênis e foi energicamente impedida de faze-lo.
Na festa de Vodu o ritual de matança, se fazia á luz do dia e em espaços públicos. Uma festa muito alegre de muita algazarra e como dizíamos no início, Cora se quer se dava conta da materialidade daquele encontro, principalmente do ponto de vista acadêmico religioso.
O tempo lhe pregou uma peça, quando lhe enunciou um mundo religioso ao vivo e totalmente a cores...
Literalmente estava de ócio. Como tal se deixava acompanhar ao lado do seu anfitrião de noite e de dia aos vários encontros públicos religiosos em Abome e pode fazer belas fotografias. Pode olhar os homens, todos eles vestindo longas saias. E numa destas festa de vodu esteve em uma grande roda de pessoas, todas em algazarra esperando que saísse de um misterioso recinto pessoas religiosas se apresentando em rituais vodus. Nisto saem do recinto dois homens dançando e no gestual um deles pula e abraça o outro de formas a que suas pernas alcançaram a cintura do outro e ali na roda e rodando e as vistas de todo os presentes os dois homens se atracaram num beijo na boca de no mínimo cinco minutos. Cora olhou, e nada continuou lhe dizendo respeito! - salvo seu olhar de soslaio ao seu anfitrião. Ela voltou-se para ele, pronta numa risada em tom de gargalhada, mas o encontrou tal empalidecido, tão transtornado com a cena que ela preferiu continuar em silencio, ou silenciar o que nela gargalhava...