quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Continuando a saga de: Carolina de Jesus e Machado de Assis: romances de um "estar" afro...

A atitude letiva de desvendar a literatura da escritora Carolina de Jesus tem rendido muitas emoções e daí proveitosos desdobramentos intelectuais. Vale ressaltar que tal leitura tem sido iniciada pelos grupos de estudantes do curso de pedagogia em incursões curiosíssimas.  Em particular quando articulam uma referencia da referida escritora com uma das obras do renomado romancista também negro ou talvez "mulato" Machado de Assis. Pois bem começando a tratar dos contextos das leituras destacaríamos a incursão com os livros A casa de alvenaria e Helena - Jesus e Machado respectivamente. A eleição pelo grupo de estudantes por apresentar estas duas obras, se despropositada de uma relação temática, terminou por nos incitar o foco acadêmico na questão da formação das cidades brasileiras, em especial a cidade de São Paulo. E com isto as correlações possíveis tanto no conceito artístico com a produção musical do migrante Adoniram Barbosa; como no caráter acadêmico ...(por concluir o relato)

07/10/2016
A discussão sobre a formação das cidades nos levou, em outras oportunidades vividas, ao contato com os escritos de João do Rio desde seu incrível texto: A ALMA ENCANTADORA DAS RUAS produzido no inicio do século 20. Lê-lo de pronto acusou um pertencimento com o livro El animal Publico do espanhol Manuel Delgado ainda em 1999. Hoje sem estar em mãos do El Animal Publico se poderia questionar: Delgado conheceu a obra de João do Rio!? Deixando tais elucubrações para outro momento vale neste momento retomar a Casa de Alvenaria e Helena.Na posição de docente, contrariando a possível lógica de que caberia a ela ler primeiro, ou seja tomar conhecimento do seu conteúdo antes do grupo de estudantes se preferiria lê-los depois.  Começamos por Helena. Se já houve por parte da docente uma leitura deste romance - ela não se lembra; não menos, aqui se ressalta o gosto pelo trato literário que Machado imprime no uso da língua portuguesa. E embora retrate na escrita o seu lugar geográfico - a cidade do Rio de Janeiro ele passeia com propriedade por outros lugares no Brasil e mesmo no mundo com uma propriedade visceral como se houvesse habitado com gosto de viajante cada um dos outros lugares distantes do Rio de Janeiro e por ele citados a exemplo da Espanha e Portugal. A sua escrita utiliza um português de Portugal: "alcova", "boceta", "bocetinha", almoço como desjejum. E se tratando de uma obra circundada no período escravocrata brasileiro  podemos sugerir, sem recorrer a nenhum texto acadêmico que resenhe a obra machadiana, que ela sugere nutrir uma relação com a antropologia de Gilberto Freire quando descreve o cotidiano da "Casa Grande" instigando-nos a observar o caráter dos povos colonizadores no Brasil. Ele trata de descrever, sem economizar no português, os povos que habitam a "Casa Grande", e reserva uma ponta como figurinistas aos negros (da Senzala) que serviam à "casa grande" e compunham o roteiro da sua saga amorosa. E nela ele por certo consegue emocionar a todos os leitores vinculando-os sentimentalmente a uma vivencia  imagética do sofrimento causando pelos desencontros familiares. E nos proporcionou um amadurecimento intelectual quando qualifica o imperativo de dar razão ao sentimento como uma forma de apropriação do si mesmo e das relações existenciais possíveis; para tanto, destaca-se um trecho da fala da personagem Helena quando diz: "Não são ideias, são sentimentos. Não se aprende; trazem-se no coração.". Também importante destacar a elegância com que o autor se distancia das personagens imprimindo uma ausência total de julgamentos, ele somente descreve, supostamente para efeito ficcional. Para finalizar indicaríamos sua apropriação com o labor educacional quando contextualiza as palavras"...professava...", e "...o tom pedagogo...". Ademais do debate de gênero por ele insinuado ao afirmar que: "Abaixo da cabeça máscula, havia um coração feminino" ; e  em outra passagem dizia: "Você devia ter nascido, - Homem?" em diálogos entre as duas personagens principais.
Para a sequencia das leituras e guardando o quesito - descrição,  tal forma também se inscreve nos escritos da autora Carolina de Jesus. E começamos a lê-la a partir de sua segunda obra: Casa de Alvenaria. No que principiamos a lê-la desde o conteúdo da Casa de Alvenaria identificamos um apego da autora para descrever o pós tudo fenomenal da repercussão da sua primeira obra - Quarto de Despejo. E nos veio a inquietação: Será que o nome Casa de Alvenaria estaria pertinente com o conteúdo, ou melhor seria dizer de... "Um ano na fama" ; ou como está sugerido no próprio texto na pagina 109: "Da favela para a Lua". E ao longo da fatigante leitura do conteúdo descrito pela autora o sentido de curiosidade indagava para saber: -Se ela havia lido a literatura produzida pelo nutrólogo Josué de Castro; - qual seria o posicionamento da autora frente as possíveis críticas favoráveis ou não ao Quarto de despejo; -e por fim, qual seria o conteúdo do livro - o então best seller QUARTO DE DESPEJO. Nisto, e diante da pouca descrição da formação das cidades para uma especulação nossa desde o significado estético de uma - casa de alvenaria, (embora não se poderia negar o conceito empregado pela autora para classificar o Quarto de Despejo na cidade de São paulo: "E que em 1948, quando começaram a demolir as casas térreas para construir os edifícios, nós os pobres que residíamos nas habitações coletivas fomos despejados e ficamos debaixo das pontes.") se pode sugerir que o conteúdo do livro pulsa para dimensionar talvez o que seja da auto estima da gente na favela e a condição de favelado em particular na década de 1960...
Um VIRAMUNDO... https://www.youtube.com/watch?v=18NdBWPGGMo ;
10/10/2016
Uma perspectiva sugestiva de uma retomada do movimento migratório imposto a partir dos anos de 1930 no cenário econômico brasileiro: "... fui residir na favela por necessidade. Com o decorrer dos tempos percebi que podia sair daquele meio. Era horroroso para mim presenciar cenas rudes que desenrolava-se na favela como se fosse natural. (...) Os favelados são colonos. Por ser expoliados pelos patroes abandonam o campo. Encontram dificuldades na cidade, que só oferece conforto e decência aos que tem empregos . Eles não podem acompanhar a vida atualmente. devido ao custo de vida são obrigados a recorrer ao lixo ou os restos da feira.". A condição de um dado alheamento existencial  da escritora Carolina de Jesus nos recorda também a obra clássica de Clarice Lispector  - A Hora da Estrela na saga da migração para habitar uma cidade grande (http://guiadoestudante.abril.com.br/estudar/literatura/hora-estrela-resumo-obra-clarice-lispector-698965.shtml ). Também Caetano Veloso poetizou a cidade de São Paulo com a música SAMPA -  https://www.youtube.com/watch?v=qeDqXLkXvr4 ; E valendo visitar também o filme O Homem que virou suco - https://www.youtube.com/watch?v=FF70tq8QSS4
E se tratando que Carolina de Jesus tivesse uma origem interiorana e mineira podemos dizer que a atração para habitar a emergente metrópole brasileira - cidade de São Paulo, esse movimento esteve para além dos nordestinos. Dito isto, retomando o conteúdo da Casa de Alvenaria 'e contextualizando-o no momento social do Brasil dos anos de 1960 que identificava na "Democracia Racial" um caminho para o enfrentamento das questões étnicas desprivilegiadas neste caso para os povos negros se pode afirmar que dada as circunstancias da fama da autora ela ignorasse sua condição de mulher negra embora a todo momento afirmasse sua condição de mulher negra ou preta como ela indica. Ou seja, salvo engano ela se coloca como superior - a favela, por suposto, não era um lugar para ela e estabelece com o favelado uma distancia que a fragiliza em sua descrição assumindo com eles uma posição hierárquica "Eu" e os "Outros""O pretinho despediu-se e saiu contente como se tivesse realizado uma proeza.";  - os pretos favelados: "Fiquei pensando nos pobres, porque eu já estou desligando dos pobres."; "Quando escrevi sobre os favelados fui apedrejada". Entretanto ela parece se subjugar a condição inferior, ou mesmo se sabotar na relação com o jornalista que a apadrinhou no sucesso do QUARTO DE DESPEJO" e particularmente quando comprou a Casa de Alvenaria : "Depois que comprei a casa é que chequei a conclusão que sou importante. [...] Agora sou alguém e posso receber visitas";    "Eu não queria esta casa, mas o repórter predomina. anula todos os desejos que manifesto. Mas, eu tenho que tolerá-lo. Foi ele quem me auxiliou-me, por isso prevalece."; "Recebi visita de uns pretos do interior e outros de São Paulo. Umas pretinhas vieram me visitar-me. Uma é pintora e aconselhou-me a alisar os cabelos. - Os jornalistas não deixam. - Credo! A senhora os obedece-os? - Quem não obedece não triunfa.". "Creio que devo ficar contente em nascer no Brasil, onde não existe ódios raciais.São os brancos que predominam. Mas são humanos e a lei é igual para todos. Se analisarmos os brancos mundiais, os brancos do Brasil são superiores."; "Devemos amar êste país onde não há preconceito de côr.". Paradoxalmente não nutria o conservadorismo do "valor" social do casamento, em contrapartida em nenhum momento a identificamos buscando uma carreira tipo de professora ou de funcionária pública e seguisse recorrendo sempre a sua "condição mendiga" e catadora de lixo como algo maior. Carolina de Jesus se expõe e parece à merce de interesses políticos que ela mesma não se dá por conta, em nome da sua ambição e literalmente para o que ela identifica como TRIUNFAR NA VIDA...