Na continuidade do estudo sobre a escritora Carolina de Jesus, a intenção aqui é reafirmar sua condição humana. Para tanto esta posto um titulo ainda provisório de Ambição e sabotamento em Bitita - nome adjetivado da autora. Nos últimos quatro anos a presença midiática da "catadora de lixo" que "virou" escritora chamou-me à imaginação. Sim, pois nenhum outro movimento fiz para lê-la literalmente em sua coletânea de livros supostamente de caráter autobiográfico, dos quais o que tem merecido referencia e destaque é: Quarto de despejo. Não obstante, percebo na retomada midiática da sua presença literária no cenário brasileiro e internacional um tom para reduzi-la a sua condição trabalhista sem demarcar ou enfatizar a sua contribuição literária. E dizer, folclorizando-a. Como se não houvesse em si o movimento de lê-la, mas de vangloria-la como mártir ou como uma heroína na enfase das suas características físicas e sociais: negra, mulher, pobre e favelada. Nisto uma questão tem se impondo para mim: o que é a obra da referida autora? A que se deve sua condição de clássico desde seu livro Quarto de despejo entre os povos estadosunidenses? E, seguindo ainda sem lê-lo enfatizaria a veiculação midiática (e aqui dos estudantes que a estão lendo para apresenta-la em seminários) da imagem da pessoa da escritora sob um tom lamurioso e de consternação: "morreu pobre e no anonimato"; "morreu abandonada e sem reconhecimento"... Impondo-lhe uma condição de vitima, de coitada. Tirando-lhe por suposto uma condição humana conturbada e intrigada desde a sua fenomenal lucidez. Possuidora de uma lucidez estonteante se coloca cega frente as suas limitações intelectuais e aos seus sentimentos, em particular o da ambição. Afirmaria ser ela antes de tudo uma pessoa ambiciosa. Um sentimento que parece dar vez a sua principal diferenciação com os daqueles a quem ela dividia a convivência na favela do Canide. Alheia a si mesma ela se desnuda e se expõe sem nenhum pudor e sem tomar em conta a aritmética estética dos interesses e considerações daqueles que a festejavam. Um sabotar-se.