sábado, 4 de outubro de 2014

“Criança Esperança” em debate acadêmico pedagógico

Desde que comecei a atuar ministrando classes no componente curricular TEC Tópicos em Educação e Contemporaneidade onde nele é a própria docência responsável por ministrá-lo quem propõe uma ementa para cumprir tal componente durante o semestre letivo, me interessei em discutir o programa midiático da Rede Globo de Televisão intitulado Criança Esperança. Inicialmente havia colocado tal programa como um item, ou um objetivo ser alcançado na proposta de estudo intitulada: A atualidade da tese de “desnutrição versus rendimento escolar”, hegemônica nas décadas de 1970 e de 1980...

A partir deste titulo a proposta apresentava como enunciado a seguinte ementa: “A pesquisa sobre a principal causa do “fracasso escolar”, hegemônica na década de 70 identificando sua relação: 1) com o fornecimento da “merenda escolar” em estabelecimentos públicos escolares para as series iniciais; 2) com a principal e suposta “tecnologia de governo” - Lula da Silva: Fome Zero; 3) com a tecnologia midiática televisiva: “Criança Esperança”. No contexto dos espaços pedagógicos e na dinâmica da condição callejera de letrado das crianças “pobres” que tem acesso “garantido” nas series iniciais de escolas públicas valencianas e do baixo sul baiano para o cumprimento disciplinar do letramento (oficial)”. 

Do denso que se apresentou a discussão proposta por mim que identifica o discurso hegemônico de fome, reminiscente dos anos de 1930 em nosso país como operante da redução do ser humano, do suposto faminto ao seu próprio estomago e da dificuldade de estudantes do curso de pedagogia em particular, abstraírem do lugar filantrópico e caritativo frente ao Outro – daquele a quem identificamos como necessitado da doação de alimentos para sobreviverem; o atalho da tecnologia midiática televisiva “criança esperança” não se constitui em si objeto de nossa reflexão.   Assim dito decidi retomar neste semestre 2014.2 a proposta de estudarmos o Programa “Criança Esperança” indicando a partir dele “O caráter colonialista da “educação brasileira” e as desigualdades sociais em educação. Estado Leviatã. As medidas de atenção ao escolar das series iniciais no Brasil. A mídia e a relação e a afirmação da Casa Grande. A criança e a sua imagem na televisão e mídia.”.

Valendo daí questionar: quais sentimentos o conjunto de estudantes de pedagogia nutrem em relação ao referido programa? Seria de estranhamento? Ou estaria a vontade, a gosto na interação midiática da sua veiculação pela TV Globo?   

Não podendo deixar de indicar que o meu sentimento sempre foi de estranhamento com o tom caritativo da atitude midiática filantrópica da Rede Globo ao expor a criança e em seu nome recolher milhões para daí definir o seu uso junto as supostas crianças e salvo engano aos adolescentes de várias partes do Brasil. Nisto uma primeira pergunta que me faço é: haveria por parte dos ideólogos da educação no Brasil alguma consideração, alguma avaliação acadêmica sobre tal programa que favoreça este lugar que tal programa se assume em mim de estranho, de patriarcal e mesmo patrimonialista? Afinal a que se deve tal uso da imagem de crianças e adolescentes no Brasil ratificando o lugar para eles de “carente” e se não exagero de mendigos da educação?

Há um costume entre nós de identificar a escolaridade fornecida pelos organismos governamentais e neste caso da educação infantil e das series iniciais como PÚBLICA. A utilização do conceito de "pública" me soa como um equívoco. Todo e qualquer espaço de escolarização e atuação na escolarização de crianças é um espaço público. O que irá diferenciar é a forma de manutenção financeira se, de caráter particular (privado) ou de caráter governamental (recursos públicos).  Fazer tal distinção nos parece importante pois evita talvez a sugestão recorrente entre nós brasileiros de que o público é patrimônio de ninguém e portanto eu mesma posso exercer sobre ele um poder patrimonialista. Neste caso a criança e a relação com a sua escolaridade estariam sendo patrimonializada pela Rede Globo? E o que significaria tal apropriação no caso da imagem da criança na abordagem midiática uma vez que tal emissora em sua programação televisiva diária parece estar averso a uma abordagem que privilegie a criança e a sua relação de infância?
Estes questionamentos me impulsionam na curiosidade de dar conta do sentimento de estranhamento como um contexto de estudo desta ação midiática entre nós. Iniciaremos retomando principalmente o estudo de imagens desde filmes como: “O Contador de Histórias”, “Quanto Vale, ou é por quilo?”, “Esses moços”, “A negação do Brasil”, “Casa Grande e Senzala” e avançando para uma abordagem conceitual desde o contexto da nossa relação com a escola governamental par series iniciais e educação infantil no município que habitamos.




A Valença da Rua

Com este título nós no Campus XV produzimos semestres atrás, uma Aula Autografada onde a autora da proposta a mestre Cora de Oliveira organizou uma mostra fotográfica com estudantes do curso de pedagogia cujo tema foi os espaços públicos na cidade de Valença, no literal da RUA.
Não menos o dito A Valença da Rua, - instiga desde então, a partir do seu caráter ambíguo, o literal do dizer sobre as ruas da cidade de Valença no contraponto de afirmar o que é e o que Vale a Rua: da dinâmica dos transeuntes valencianos que praticam sua alteridade nela – por exemplo, mantêm a cultura de andar de bicicleta e ter nela um meio de transporte do dia a dia a despeito da violência dos “donos da rua” – os automóveis.  A rua identificada como o mais importante dos espaços públicos. O conceito RUA[1], sua “Valença” e a possibilidade de refletir os espaços escolares municipais nesta cidade.
Com esta proposta de ementa citada no parágrafo anterior a autora retoma esta temática para agora abordá-la no componente curricular TEC Tópicos de Educação e Contemporaneidade no curso de pedagogia do Campus XV UNEB.
Desde aqui vale ressaltar que a construção do interesse para estudar as ruas da referida cidade aconteceu a partir de 2004 quando Cora de Oliveira passa a exercer sua atividade profissional de acadêmica na cidade de Valença. Conforme citado no segundo parágrafo deste escrito, ela ficaria impactada com a quantidade de bicicletas que circulavam nas principais ruas da cidade. Eram bicicletas que levavam por vez duas a três pessoas e até quatro pessoas, geralmente de mesma família com destaque para a composição com crianças. Tanto homens como mulheres ali carregavam e ainda carregam outras pessoas e como já dito, principalmente crianças. Nisto uma vez também na condição de ciclista a autora pode identificar o desprezo e a empáfia de quem conduz seus carros nos mesmos espaços aonde circula as bicicletas que impacientes esbravejam: “Quer morrer é?, porra! Este argumento como o mínimo no uso de palavrões e forma de pressionar a liberação da Rua pelas pessoas ciclistas – seja quem seja que as tivesse conduzindo. Vale ressaltar que ao longo desta década não se observou nenhum esforço de poderes governamentais para privilegiar o uso da rua tanto pelos pedestres, como pelos ciclistas e agora motociclistas. Ao contrário o transito nas ruas, em especial naquelas de maior trafego de pessoas, segue sem merecer um ordenamento que privilegiem um uso equitativo. Isto a despeito da ênfase do discurso hegemônico no mundo dia a dia exposto na mídia televisiva por exemplo o qual favorece o uso de bicicletas e limita o acesso de carros seja garantido ciclovias seja reduzindo o teto de velocidade em áreas citadinas de maior fluxo de pessoas.
Se tal posição nos leva a apostar que o controle de ruas citadinas, favorecendo seu acesso tranqüilo e horizontal à vários segmentos de pessoas que delas se utilizam para ir e vir em seus dias e noites se constitui em um ponto decisivo no controle da violência em sua expressão mais brutal – tirar a morte do Outro de forma abrupta. E avançamos daí para a afirmativa de que tal postura governamental irá refletir em particular nos espaços escolares. Isto por que: Quem na cidade de Valença utiliza a bicicleta como meio de transporte? Quantas crianças as utilizam para se deslocarem?   Frear o imperativo de lugar que identifica os carros como os “donos da rua” poderá ocasionar uma educação mental na ordem patrimonialista de motoristas?  
Este por certo poderá ser um encaminhamento para uma abordagem de A Valença da Rua. No mínimo um caminho onde quem sabe num dia destes, qualificar uma discussão sobre o papel da prefeitura municipal e de organismos governamentais outros para garantir um principio de sociabilidade[2] como um marco de possibilidade no respeito e na dignidade entre as pessoas que habitam e por ora visitam a referida cidade. E como tal ele será desdobrado para uma descrição mais minuciosa do atual uso das ruas na cidade de Valença. Por ora a proposta fica como uma alternativa de estudo na temática A Valença da Rua, podendo estar também sendo qualificada a partir da reflexão sobre os usos da Rua, localizando nela os movimentos de alteridades entre os que nela transitam. Buscando responder: Seria possível a partir de um estudo da Valença da rua identificar espaços públicos dialógicos para uma reflexão do cotidiano de espaços escolares das series iniciais? E espaços da educação infantil?
Para tanto seguiremos com o conceito de Leitura de mundo em Paulo Freire[3] reescrito em Mariza Lajolo; demarcando uma escritura desde suas memórias, passando pelos sentimentos com as paisagens, com os encontros que o contato com o conceito de rua poderá proporcionar.





[1] Conceito de rua a ser dimensionado.
[2] Conceito de sociabilidade... 
[3] Freire, Paulo. A importância do ato de ler.