quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O inusitado Diario de Bitita

Diria uma pena que a escritora Carolina de Jesus então Bitita, por suposto, não gostasse de estudar - isto é da relação com a escola em si, sua dinâmica de escolarização e mesmo para quem faz a opção pelo autodidatismo o ato de estudar é um exercício para que deseja prosperar na arte de escrever. na literatura de fins artístico. O que seguramente  seguramente exige disciplina intelectual, introspecção cognitiva de formas a refletir sobre o que se ler para alem do significado de entretenimento que a leitura do texto impresso possa conferir aos amantes da leitura. Afirmaria que ela regalou-se na soberba do seu diferencial social como amante da leitura e encontrou nesta atitude uma redenção ao seu sofrimento de ser negra no Brasil. E de principalmente reconhecer-se como negra e com lucidez desde ainda criança perceber a discriminação e os maus tratos aos quais os povos negros estavam então sendo submetidos no Brasil. A exemplo da escolarização formal: "No ano de 1925, as escolas admitiam as alunas negras. Mas, quando as lunas negras voltavam das escolas, estavam chorando. Dizendo que não queriam voltar à escola porque os brancos falavam que os negros eram fedidos." (Diário de Bitita 1986-39). Falta na sua  escritura um amadurecimento a partir de outras leituras passiveis de existirem no tempo dela e pudesse dizer sobre ela para além dela mesma e  da sua vivencia. Possivelmente poderia aprofundar uma constituída tendencia presente nela da produção de uma escritura etnográfica em tons literário e por certo de caráter etnográfico à moda do renomado antropólogo brasileiro Gilberto Freire, por ela, salvo engano nunca citado. Não obstante ela cita Josué de Castro, o qual apresenta uma literatura mediada e de pouca qualidade literária fazendo dai uma oposição a escritura etnográfica freireana. Isto resenhado aqui após a leitura do último livro: "O diário de Bitita". Lembrando que este foi o segundo livro que li da referida autora. O primeiro foi A casa de Alvenaria. Esse parece mais uns manuscritos malditos que não disse para que veio e somente escancarou seu estado supostamente "anómico". Um livro de difícil leitura e se fosse a obrigação de estuda-lo por certo desistiria do intento...
O Diário de Bitita por sua vez, repetindo- seu ultimo livro, trouxe para mim uma perspectiva distinta. Ademais da excelência na qualidade do relato etnográfico se nota um detalhamento na seleção dos dados a serem relatados para o acesso dos seus leitores.   Valendo ressaltar ainda que gostar de ler é uma atividade recreativa em si. O estudar por sua vez tem caráter de obrigação, um labor para a ocupação do lugar, em particular, de intelectual. Neste sentido reafirmaria o caráter antropológico da literatura de Carolina de Jesus a qual se distancia daquela produzida pelo  renomado escritor Machado de Assis. Assis demostra somente se domínio com a arte de escrever. Não obstante a escritura machadiana alberga dados etnográficos quando ainda na tendência a ficção ele descreve com minucias o caráter daqueles que residiam na Casa Grande, sem por certo perder de vista o tom de denunciar a condição do negro no Brasil. Machado de Assis também um autodidata se diferencia de Carolina de Jesus pelo rigoroso estudo do idioma português, seu disciplinamento para dominar as letras e as formas do dizer. A escritura de Carolina de Jesus é completamente emocional ( a de Machado nos emociona por nos transportar a realidades e contextos) nos faz ter uma relação com ela em si. Poderia dizer até que ela se vitimiza e comove-nos a partir daí. Embora seja a realidade dos povos negros ela chama para si a dor e as limitações e obvio que está impossível toma-lo como uma ficção. Não com isso dizer que a ficção não contenha em si a verdade e a realidade. Mas de como a realidade Bitita é apresentada ao leitor escapa da possibilidade de uma nuance artística literária.  Neste caso vale questionar: a  que se deveu seu primeiro livro - Quarto de Despejo figurar como um best seller?
Retomando o Diário de Bitita, o que se qualifica aqui como uma etnografia em tons pós modernos, é inegável a necessidade dela de denunciar desde a sua própria carne a condição de povos negros no Brasil. O protagonismo da saga é dela e como tal afora a importância dos acontecimentos narrados parece não existir outras performances  vivenciadas pelos povos negros ademais do sofrimento a que estavam submetidos.  Afinal quais movimentos artísticos estariam demarcando a presença de negros no Brasil no inicio do século 20?


Atualizado em 23/01/2017 por Cora Corinta Macedo de Oliveira

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