segunda-feira, 8 de setembro de 2014


O conceito de “marco civilizatório” e a  formação de licenciatura em pedagogia para um exercício docente no conhecimento sobre “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”.

 

Cora Corinta Macedo de Oliveira

Uma das abordagens acadêmicas que mais tem desafiado a inteligência intelectual e a condição humana entre nós brasileiros é o enfrentamento das desigualdades sociais em educação[1]; ressaltando para este contexto a categoria de “educação” como sinônimo da “escolaridade básica”; e daí estreitando para o objeto de reflexão a profissionalização do pedagogo para uma atuação nas séries iniciais do ensino fundamental.

Longe de propor um estudo a partir de questões econômicas na relação entre Estado e população que permeiam o suposto acesso universal de toda criança a escola; de salários de professores;entre outras abordagens economicistas, se indagaria: a que se deve a dificuldade de iniciação da criança na cultura da palavra escrita – daquelas que necessitam imperativamente de espaços escolares das redes municipais,? Por que estão tão emperradas as relações entre as várias instancias da comunidade escolar municipal? Como os espaços pedagógicos das escolas municipais tem se relacionado com as demandas de crianças que somente nestes espaços, e em nenhum outro dos seus "dia a dia" poderão se exercitar na apropriação da leitura e da escrita sob os moldes do marco civilizatório eurocêntrico!?.

Desde tais questões afirmaríamos que o estudo da "história e cultura afro índio brasileiro" pode se consituir um caminho imperativo na problematização da reprodução conceitual de um dado lugar para povos índios e afros descendentes. Mas daí, seguiríamos indagando: Como sensibilizar os licenciados em pedagogia, em sua maioria negra a mestiços entre brancos e indígenas, com predominância de uma tipologia africana para uma relação dialógica de alteridade com o estudo destas questões? Como passarmos da reprodução discursiva aonde se localiza a herança dos referidos povos sendo identificada como “influencia” e / ou “contribuição” na “civilização brasileira” e nunca de importância igual com a nossa provavel herança de povos europeus?  

Sem perder de vista a hegemonia do marco civilizatório eurocêntrico e do papel da escola para a culturalização de todos nós nesse marco, pensamos que valesse a pena enveredarmos por um caminho de questionarmos: Será que o discurso hegemônico que identifica a civilização brasileira a partir de pressupostos eurocêntricos estaria inviabilizando a afirmação de povos brasileiros marcados por outros princípios civilizatórios? O que seria ou como poderia ser demarcado o marco civilizatório de povos negros e indígenas na sociedade brasileira? A atitude de reproduzir um dado lugar subalterno destes povos em especial nos espaços escolares da educação de crianças não seria alimentar atitudes pedagógicas de violência?

Buscando colaborar nesta perspectiva optamos por tratar do conhecimento em “história e cultura afro índio brasileiro” abordando o conceito de arte, um conhecimento que se filia a uma produção a partir de sentimentos, da emoção, intimamente pessoal e ou individual. Se a arte é uma forma de conhecer a realidade como estudar capoeira, gastronomia, moda, fotografia, cinema oportunizando uma compreensão da atualidade da convivência entre os povos brasileiros – negros, índios, mestiços?. 

A arte como perspectiva didática letiva também foi optada pela relação entre a formação de licenciatura em pedagogia e a criança das series iniciais no pressuposto de que as crianças das cidades aonde habitamos poderão estar futuramente sob a responsabilidade deste profissional para uma iniciação escolar.

E uma vez nesta incursão sinalizaríamos que ela foi dinamizada a partir do conceito de arte nos limitando a questionar: o que é a capoeira? O que é o cinema? O que é a fotografia? O que é a gastronomia? E a moda é arte? Isto representando um exercício intelectual significativo para empreender o como dinamizar a historicidade de povos indígenas e africanos no Brasil nos espaços escolares municipais. Pensamos que um movimento para alcançar este empreendimento seria o de pensar quais músicas, quais livros – romances, foram produzidos com estas temáticas no Brasil ao longo dos séculos, e daí contextualizar o ano de produção, autores e a vinculação com a temática indicada.  Ou realizar uma pesquisa de campo com artistas - mestres que praticam capoeira; com baianas que preparam, por exemplo, o acarajé conceituado no paladar da uma preferencia popular...

Na sequencia de sugestões para o efetivo de uma pratica de alteridade entre estudantes da licenciatura em pedagogia poderíamos fazer uma incursão problematizando sobre: "quais filmes eu já assisti que havia personagens negros ou indígenas e o que senti e o que repercutiu na minha formação de em pedagogia"? "Qual livro – romance que narrou sobre estes povos eu já li ou já foram produzidos em filmes que eu assistir"? E, os livros e filmes poderiam por vez ser utilizados na escolarização de crianças das series iniciais?

Partindo do pressuposto de que o marco civilizatório tem como principio a língua materna o que significará ressaltarmos o estudo de dialetos para situarmos a presença de povos negros e indígenas entre nós? (Isto seria possível sem nos determos a uma compreensão das diferenças conceituais entre os conceitos de "dialeto", de "idioma" e de "língua"? E mesmo reconhecer que dizer dialeto é atribuir um valor subalterno ao conceito de "língua"? )       

Para além destas questões didáticas letivas e retomando o conceito chave de nossa abordagem – O marco civilizatório - de povos africanos e indígenas na formação da sociedade brasileira sugerimos que ademais da língua materna, a religiosidade se constitui um principio civilizatório imperativo para uma demarcação histórica da sua presença e indicando daí uma contradição: a oralidade no contraponto da hegemonia da escrita. Seguindo nesta direção teríamos para visitar a produção musical, a dança, ao teatro, e não menos o nosso próprio caminhar em territórios ( a rua em especial) de pertença, por exemplo, afro brasileiro (na Bahia eles são a própria existência de baianos) o exercício para uma sensibilização humana de qualquer profissional da pedagogia podendo se constituir em instrumentos dialógicos para refletirmos sobre a descriminação e preconceito da cor da pele imperante entre brasileiros. Finalizando com a questão: a regente de classe das series iniciais atua descriminando e estabelecendo uma relação de preconceito com crianças afro índio descendente?

O esforço para pensar e tentar alcançar um raciocínio da historicidade afro índio brasileira pode ser iniciado a partir da leitura de dois clássicos um em Gilberto Freire e outro em Darcy Ribeiro. A partir daí iremos buscar entender o porquê Gilberto Freire é considerado o arauto da Democracia Racial no Brasil. O esforço intelectual também nos indicará a necessidade de atualizarmos a obrigatoriedade de abordagem destas temáticas na Educação Básica – Hoje Lei. Isto, para alem da obrigatoriedade de sua importância está posto em jogo a possibilidade de humanização dos espaços escolares destacando aí a humanização do profissional da pedagogia.

 



[1] Desde uma leitura de A crise na educação da filosofa Hannah Arendt ela irá pontuar que a condição de desigualdades na educação está também e principalmente para o fato de que na sala de aula se estabelece uma relação de desigualdade uma vez que a regência detém a autoridade pedagógica.  E o alunado estaria numa condição subalterna fundamentada pela hierarquia na autoridade docente. Este como um principio escolar em todos os níveis da educação.

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